30/10/09 - 22h11 - Atualizado em 30/10/09 - 22h11
Diploma técnico abriu as portas para Rodrigo Ferreira trabalhar no
Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Veja como fazer valer a pena o
curso de educação profissional e conseguir um emprego.
MÔNICA TEIXEIRARio de Janeiro
Esta é a história de um craque. Na adolescência, o operador de sistema Rodrigo Ferreira era titular do time do bairro. Vivia no campinho de futebol, ao lado de casa, no subúrbio do Rio.
"Eu passava
muito mais tempo com a bola do que me dedicando aos estudos", lembra.
A grande mudança na
vida de Rodrigo começou no Maracanã. Foi no estádio que ele disputou uma
partida decisiva. A arquibancada estava lotada. Eram milhares de jovens, que, assim
como ele, tinham vontade de entrar em campo. Mas as vagas eram para poucos.
Rodrigo conseguiu. E marcou um gol de placa!
Mas não foi uma
partida de futebol. Rodrigo disputou uma vaga para entrar em uma concorrida
escola técnica federal: o Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow
da Fonseca (Cefet), no Rio de Janeiro. Todos os anos, a prova reúne cerca de 14
mil candidatos. Só 1,4 mil são aprovados.
"Foi minha
primeira vitória, meu primeiro desafio", diz Rodrigo.
O que fez Rodrigo
deixar o time de futebol do bairro e apostar nos estudos foi uma convocação do
pai. Uma conversa séria, de homem para homem.
"Pelo fato de
eu chegar em casa e constantemente encontrá-lo jogando futebol na rua com os
demais colegas, falei que ele deveria tomar uma atitude, que eu não teria
condições de pagar escola porque não estava tendo o retorno esperado",
conta o taxista Sidney Faria.
O filho até hoje se
emociona ao lembrar.
"Eu propus que
ele prestasse concurso para uma escola técnica para se profissionalizar em
alguma coisa", lembra o pai.
A família, com
muita dificuldade financeira, decidiu investir o pouco que tinha na educação do
filho.
"A inscrição
custava R$ 10. E eu só tinha R$ 10. Foram R$ 10 que multiplicaram a nossa vida
e a vida dele", conta a mãe Mara Ballestero.
Hoje são os pais
que contam com a ajuda do filho. Rodrigo ajudou a comprar um carro, a pagar as
despesas da irmã na faculdade e a reformar a casa. Hoje o pai chora de emoção e
prazer.
Rodrigo subiu na
vida, tem apartamento próprio e hoje ganha dez vezes mais do que no início da
carreira. Mas não foi fácil. Ele entrou nos trilhos, mas teve que percorrer um
longo caminho. O trajeto para a escola era de trem. Passava quase quatro horas
por dia nos vagões.
"Eu pensava
que tanto esforço um dia teria que valer a pena", lembra Rodrigo.
E como valeu a pena
fazer o curso técnico e conseguir emprego na hora.
"Nunca fiquei
desempregado. Na verdade, já parei para pensar sobre isso: como seria procurar
emprego?", diz o operador de sistemas.
O diploma de
técnico abriu as portas do centro de controle do Operador Nacional do Sistema
Elétrico (ONS), onde poucas pessoas têm autorização para entrar. No local, a
atenção é total. Rodrigo tem a responsabilidade de não deixar que nenhum lugar na
Região Sudeste do país fique sem energia elétrica. E ele adora o que faz.
"Isso faz com
que eu pense que sinais de trânsito, hospitais, as pessoas em suas residências
dependem da luz. Então, algum problema conosco toma proporções enormes. Sei que
milhões de pessoas vão ser afetadas", constata Rodrigo.
É um lugar cobiçado
e para poucos. São apenas 30 operadores. Em todo o Brasil, pouco mais de 100.
"Na prática a
decisão de não deixar o Brasil apagar está nas mãos destes técnicos. São eles
que estão aqui 24 horas por dia zelando pelo bom funcionamento.", comenta
o gerente-executivo Jayme Darriba.
“Isso corre na
veia”, afirma Rodrigo.
Dez anos depois,
Rodrigo, profissional bem-sucedido, voltou à escola que mudou sua vida.
"Sinto
saudades, saudades dos amigos", comentou.
Na escola, o menino
de 15 anos virou homem, pronto para o primeiro emprego como eletrotécnico.
"Um aluno como
o Rodrigo me dá orgulho", comenta um professor.
Todos têm certeza
de que a sala de aula é um trampolim para um bom emprego.
"Não estou
preocupado porque sei que quando chegar ao fim vou estar dentro da indústria,
já estou com um pé dentro", afirma o aluno Lucas Martins.
Eletrotécnica é só
um dos 27 cursos técnicos oferecidos pelo Cefet do Rio de Janeiro. Entrar é
difícil. Se formar então... O curso é rigoroso. Ensino médio e técnico juntos,
em período integral. Nas turmas de 40 jovens, em média, apenas dez chegam ao
fim. Mas, segundo o diretor, Miguel Badenes que também estudou no Cefet, a
recompensa vem rápido. A escola tem 3,2 mil empresas conveniadas de olho nos
alunos.
"Eu garanto
que nenhum aluno do Cefet que queira galgar o mercado de trabalho ficará
desempregado. O técnico é valorizado no mercado de trabalho. Em média, o
salário de um aluno que termina o curso técnico e termina seu período de
estágio está acima de R$ 1,2 mil. Grandes empresas contratam como primeiro
emprego e pagam salários de até R$ 1,8 mil", declara o diretor.
Foi o que aconteceu
com Rodrigo. Hoje ele é exemplo para outros jovens. O aluno André Heleno
Batista também conhece as dificuldades da vida. O pai é servente de pedreiro e
a mãe, faxineira. André é um aluno brilhante do curso de eletrotécnica. Prestes
a concluir o ensino técnico, ele já tem proposta de emprego.
"Com certeza,
o ensino técnico vai mudar a minha vida. Já está mudando muito", constata
André.
Assim como mudou a
vida de Rodrigo. O menino que jogava bola realmente virou um craque, mas ainda
sonha com novas vitórias. "Eu continuo estudando, estou cursando
engenharia elétrica. Terminando a faculdade, acredito que novos horizontes vão
abrir. Eu vou lutar, mais uma vez, para conquistar mais objetivos e não tem
onde parar", diz.

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